Manaus – Um passeio pelo Museu do Seringal

Olá Viajantes,

O que acha de conhecer um lugar que é uma mistura de museu com cenário cinematográfico e ainda passear de barco pelas águas amazônicas? Se gostou da ideia, saiba que poderá ter essa experiência no Museu do Seringal em Manaus. Um dos passeios que mais gostamos de fazer e contaremos os Detalhes nesse post.

Essa é a visão da chegada ao Museu do Seringal

Do que se trata esse museu?

O museu traz informações sobre o Ciclo da Borracha vivido no Brasil no final do século XIX e começo do século XX, mas usando o cenário cinematográfico do filme A Selva inspirado no livro de mesmo nome do português Ferreira de Castro. O filme é um romance que conta a perspectiva de um jovem monarquista português que imigra para o Brasil e consegue trabalho em um seringal na selva amazônica.

Então o museu conta com cenários fictícios deste filme que retrata como era um seringal que existiu de verdade em Humaitá, há 600 quilômetros de Manaus por volta de 1915.

As visitas acontecem entre às 9h e 16h e só podem ser feitas na companhia de um guia que leva os turistas para conhecerem os principais cenários de vida que um Seringal possuía e como era a vida de quem ali vivia. Além das construções, o passeio também conta com uma pequena trilha onde é possível ver árvores características da região como o Açaí, o Cupuaçu, Breu Branco e outras árvores nativas da Amazônia, além é claro, das próprias Seringueiras.

Aprendemos a distinguir as folhas das seringueiras

Como eu faço para chegar?

O museu está localizado no Igarapé São João na Vila Paraíso, sendo que o único acesso é pelo rio. Assim sendo, existem duas formas de chegar no museu: através de um barco privativo contratado por agência de turismo local ou indo por conta própria via barco de uma cooperativa. Tem quem considere mais tranquilo fazer via agência, mas podemos garantir que é muito fácil chegar no museu por conta própria e ainda pode economizar algum dinheiro.

O primeiro passo é pegar um táxi ou uber com destino à Marina do Davi. O carro vai te deixar em um estacionamento pequeno com uma pequena marina de madeira ao lado. Vários barcos ficam atracados, mas o que devemos procurar é pela placa da Cooperativa fluvial ACAMDAF. Os barcos que fazem o transporte até o Museu do Seringal funcionam também como transporte de pessoas entre as comunidades ribeirinhas da região. Por isso você vai encontrar uma placa com diferentes preços a depender do destino, ainda que a viagem seja feita pelo mesmo barco.

Tabela de preços fixada na Marina

Para quem não está acostumado a pegar transporte fluvial, assim como a gente, funciona como se fosse um ônibus que vai parando nos pontos rodoviários (que no caso são essas comunidades) até chegar no Museu do Seringal. Uma pessoa uniformizada da cooperativa recolhe o dinheiro dos passageiros e estes aguardam no barco até que tenham pessoas suficientes para a partida. Pagamos R$ 18 o trecho por pessoa em janeiro de 2022.

A dica do Detalhes aqui é tentar se programar para chegar antes de cada hora cheia. Quando estivermos por lá, os barcos saiam de hora em hora. Ou seja, se você chegar 9:15h, por exemplo, é capaz de precisar esperar até o barco das 10h para partir e com isso perder uma hora valiosa do seu dia.

O trecho de aproximadamente 30 minutos de barco é muito gostoso de ser feito e curioso para quem não está acostumado a ver esse tipo de transporte e como as pessoas transitam por lá. A brisa que bate quando o barco navega rápido é um pequeno alívio para o calor úmido de Manaus. O barco segue parando nas Comunidades, mas nem tudo é muito bem sinalizado. Por isso não se esqueça de pedir ao piloto ou ao cobrador para te avisar quando chegarem ao Museu do Seringal.

Assim como dissemos anteriormente, não há muitas sinalizações do museu e nem mesmo pessoas para te receber quando o barco te deixa na doca. Mas não se preocupe, basta caminhar pela trilha aberta em direção à construção ao longe. A caminhada até o museu vai depender do volume do rio. Se estiver em alta, pode ser que você desembarque quase dentro do museu. Em época de baixa, pode ser que precise caminhar alguns minutos. De qualquer forma, é um passeio um pouco difícil para quem tem movimentação limitada pelo subir e descer do barco, escadas e pela trilha em terra crua.

A distância da caminhada será determinada pelo nível do rio

Como é a visita guiada?

Ao chegar no Museu, um guia fará a recepção e pedirá que preencha seu nome no livro de visitas e cobrará o ticket do passeio (pagamos R$ 10 por pessoa). Ali pudemos constatar, para a nossa surpresa, como poucas pessoas vão até o museu. Chegamos para a primeira visita do dia e estávamos sozinhos, mas o passeio acontece de hora em hora e em grupos organizados conforme vão chegando.

A primeira parada é na Casa do Barão. Simulando a construção do dono da fazenda da época, podemos ter uma noção de como viviam os mais abastados. Pode parecer que uma casa de madeira no meio da selva não seja muito luxo, mas a verdade é que quase tudo era importado e contrastavam com toda a simplicidade e falta de estrutura do ambiente à sua volta. Eram louças italianas, mobiliário suíço e alemão, roupas francesas e até alimentos trazidos de outros países para o deleite do coronel (como eram conhecidos esses fazendeiros) e sua família. Toda essa riqueza, e isso é deixado muito claro nesse passeio, às custas de um regime quase escravagista no qual os seringueiros eram submetidos.

Também é feito correlação dos ambientes da casa com passagens do filme ali gravados. Então cenas do barão Juca Tristão, sua filha Iaiá (interpretada por Maitê Proença) e o Alberto, português que veio morar na casa para ajudar o coronel com a contabilidade da fazenda são relembradas. Ainda nesse momento é trazida a experiência do escritor do livro que inspirou o filme como um paralelo entre o livro/filme e sua vida em um seringal no começo do século XX.

A próxima parada é no Barracão do Aviamento. Toda em madeira e completamente entupida de tudo o que um seringueiro precisaria para viver por ali, esse era o local que funcionava como mercadinho da região.

Boa parte dos seringueiros eram aliciados no nordeste brasileiro fugindo da seca na promessa de uma vida melhor no seringal. Acontece que estes homens, que já chegavam devendo dinheiro ao coronel pela passagem, alimentação e estadia, viam sua dívida aumentar toda vez que passavam no Barracão do Aviamento para comprar os instrumentos de ofício e alimentos. Era um sistema exploratório onde quem ganhava sempre era o Coronel.

Foi nesse espaço também onde pudermos pegar uma péla pela primeira vez. Pélas são umas bolas de látex endurecido depois de defumado e que podem chegar à 40 quilos, resultado do trabalho do seringueiro naquela época. A que pegamos na mão devia ter pelo menos 15 quilos, mas quando largados no chão à uma altura de pouco mais de um metro voltaram para a minha mão quicando. Achei a experiência muito legal!

Uma retratação muito legal de como era um barracão do aviamento

Seguindo passeio, passamos pela Casa de Banho que estava em reforma, local onde o filme revela Iaiá tomando banho enquanto era assistida pelas brechas da parede de madeira pelo português Alberto. A água para o banho vinha da cidade. Já as roupas sujas da família do coronel eram colocadas em baús e levadas para serem lavadas na Europa em uma rotina que podia levar três meses até que estivessem de volta. Tudo isso beira ao absurdo, mas talvez o maior deles seja tudo isso ser possível de ser usufruído pela família do coronel enquanto todos à sua volta viviam em um ambiente precário de higiene.

Outro ponto de parada é a Capela de Nossa Senhora da Conceição. Era o lugar onde os seringueiros faziam suas preces para uma vida melhor e também onde podiam se confessar ao padre. Muitas vezes as confissões eram sobre assassinatos dos colegas ou até mesmo planejamento de fugas. Sabendo disso, o coronel colocava falsos padres para saber tudo o que estava acontecendo em sua fazenda e poder administrar essas informações como bem entendesse, incluindo castigos e sentenças de morte aos que planejavam fugir.

A capela era muito mais do que um lugar para rezar

Passamos então a andar pela Pequena Trilha onde nos é explicado que cada seringueiro tinha sua própria trilha que começava e terminava na fazenda como se tivesse o formato de uma gota. Nesse trajeto passava-se pelas seringueiras em cujo troncos eram feitos cortes diagonais, tal qual faziam os indígenas que foram os primeiros a usufruir das propriedades da borracha natural. No tronco era amarrado uma concha para que o látex fosse escorrendo pouco a pouco. Após terminar pela primeira vez o circuito cortando e colocando os potes, ele passava uma segunda vez fazendo a colheita desse látex.

É na pequena trilha que temos uma mistura de informação da vida em um seringal e das árvores e animais da região

Era uma vida difícil em que o seringueiro precisava conseguir pelos menos 50 quilos de borracha por semana para trocar por alimento. Além de ser extremamente difícil produzir essa quantidade, ainda tinham de lidar com a balança alterada do coronel que muitas vezes roubavam até 10 quilos. Isso fazia com que alguns seringueiros entrassem na trilha do outro para furtar os potes com látex ali deixados pelo primeiro seringueiro. Não havia polícia ou justiça e muita coisa era resolvido de forma criminosa mesmo. O coronel, quando tinha conhecimento de um assassinato aplicava a sua justiça. Para que não tivesse prejuízo com o assassinato de um seringueiro, deixava que o assassino vivesse se assumisse a dívida deixado pelo morto. Em qualquer cenário, o único que se beneficiava era o coronel. Para ilustrar esse momento na visita, há um cemitério cenográfico na trilha com estacas de madeira em formato de cruz.

É um cemitério de mentira, mas ajuda a ilustrar bem os conflitos e os vários jeitos que um seringueiro podia morrer naquela época

Na trilha são passadas informações das árvores e animais da região. Pudermos sentir o cheiro do breu branco e tivemos a sorte de ver um bicho preguiça se alimentando. Passamos ainda pela Casa do Seringueiro e a Casa do Capataz. Quando nos deparamos com a estrutura feita para reproduzir como eram esses espaços, sabemos que é preciso de muita força de vontade para chamar aquilo de casa. Uma estrutura de madeira sem paredes e erguidas à alguns metros do chão, os seringueiros ali dormiam com a arma na mão com medo dos índios e onças que atacavam à noite. A casa do capataz era pouca coisa melhor se considerarmos que ao menos tinham paredes, mas certamente não chegavam aos pés de todo o luxo que o coronel dispunha.

As casas do seringueiro não chegava aos pés do conforto da casa do coronel

A próxima parada é no Tapiri de Defumação. Depois da extração do látex, os seringueiros seguiam para essa estrutura de madeira coberta com palha e uma espécie de fogareiro onde passavam horas a defumar o leite do látex em varas de madeira. Dessa forma o látex ficava sólido e resistente à fungos. Formando aquelas pélas que vimos no começo do passeio.

A fumaça desse processo de defumação os deixava cegos ou então adquiriam doenças pulmonares como tuberculose. Aliás, ser seringueiro naquela época era estar sujeito a morrer de várias formas. Há registros que passam por doenças como tuberculose, malária, alcoolismo e beribéri (causado pela falta de vitamina B1 por conta da alimentação escassa de variedade), além das mortes causadas pelos índios, onças, brigas entre os próprios seringueiros ou pelas tentativas frustradas de fuga. Poucos conseguiam saldar sua dívida e sair vivo dos seringais.

As condições de trabalho eram sempre as piores possíveis

Os seringueiros considerados xucros pelo coronel pelo simples fato de são se adaptarem ao trabalho na floresta, eram destacados para trabalhar na Casa de Farinha. Nosso último ponto de parada do passeio onde é explicado como era preparada a farinha de mandioca para ser vendida e compensar a dívida do seringueiro.

Finalizado o passeio, eles mesmos se encarregam de passar um rádio para que o próximo barco disponível da cooperativa passe pelo museu e você possa voltar à Marina do Davi.

O barquinho chega e espera os visitantes embarcarem de volta para a Marina

Quanto tempo dedico a esse passeio?

Considerando o trajeto de ida e volta do táxi até a Marina + o tempo gasto do barco da cooperativa para ir e volta do museu + o tempo da visita guiada, entendemos que pelo menos um período será necessário. Recomendamos que tire uma manhã para fazer esse passeio e com certeza terá voltado ao centro de Manaus a tempo para experimentar um dos muitos restaurantes que servem pratos regionais.

Quem consegue ver a preguicinha olhando para a câmera?

Esse é um passeio pouco divulgado e, depois do Encontro das Águas e do Teatro Amazonas, é o passeio que não pode faltar no seu roteiro em Manaus. É como ter uma breve aula de geografia, história e biologia fora da escola e que nos faz entender um pouco mais sobre o nosso país.

Como é um passeio de meio dia, pode ser facilmente combinado com uma visita aos prédios históricos de Manaus. Mas isso é papo para o próximo post. Se quiser acompanhar em tempo real nossas postagens e ver nossas fotos e vídeos dessa e outras viagens, curta nossa página no Facebook e no Instagram.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: