Hotel de Selva na Amazônia – Atividades do Primeiro Dia no Anavilhanas

Olá Viajantes,

Passamos as últimas semanas falando sobre:

Agora chegou a hora de contarmos um pouco mais sobre nossa experiência com as atividades do Anavilhanas e quem sabe não te transportar para a floresta amazônica e te inspirar a fazer a uma viagem que todo brasileiro deveria ter a oportunidade de fazer. Preparamos uma série de quatro posts contando todos os Detalhes que você só encontra por aqui.

O dia sempre começa na voadeira e com essa vista maravilhosa

Nossa primeira experiência

Como já sugerimos no post anterior e essa dica vale ouro, quem dorme em Manaus e pega o transfer logo cedo, consegue otimizar dinheiro e experiência chegando a tempo de almoçar no hotel e descansar um pouco antes do primeiro passeio do dia. Recomendamos fortemente que fique em Manaus pelo menos dois dias inteiros para completar um roteiro de Manaus + Hotel de Selva tornando sua viagem mais completa. Podemos pensar em montar um roteiro e publicar aqui se tiverem interesse.

Seguindo nossa própria recomendação (ainda bem rs), chegamos a tempo de almoçarmos no Anavilhanas e seguimos para a nossa primeira atividade:

Visita à Comunidade Cabocla do Tiririca

O primeiro passo para todos os passeios que fizemos no Anavilhanas era embarcar em umas das voadeiras do hotel. Não me entenda mal, considero isso uma vantagem. Navegar o máximo possível pelo Parque Nacional do Anavilhanas é um enorme privilégio. Além do mais, é cruzando pelas águas do Rio Negro que podemos ver a Amazônia acontecendo no seu ritmo. Ver as araras, garças e outras aves voando logo cedo ou ainda ter a sorte de encontrar alguns tucuxis caçando os peixes no final do dia faz parte da magia dessa estadia.

Ter as araras e papagaios como companheiros de viagem é muito legal

O primeiro passeio, no entanto, é sobre quem não só observa tudo isso, mas também vive de perto e tem grande conhecimento sobre a vida na Amazônia. Parte do que chamamos de povos da mata, incluindo nesse contexto as comunidades ribeirinhas e caboclas, seguimos rumo à nossa primeira parada: a Comunidade Ribeirinha do Tiririca.

Quando o barco diminui o ritmo para atracar na prainha em frente à comunidade, o motor para de funcionar e podemos ouvir o silêncio do rio sendo quebrado pelos pássaros ali próximos. Assim que começamos a desembarcar, toda a atenção do grupo foi para algumas araras canindé que estava descansando em uma das árvores próximas.

Após algumas fotos, notamos a aproximação de uma senhora que seria apresentada como a líder comunitária do Tiririca, mas que minha péssima memória fez o desfavor de esquecer o nome. Uma pena, é verdade! Porque era uma dessas mulheres que mesmo sem conhecer à fundo nos inspira por sua presença e simpatia.

Após uma pequena apresentação, o guia enfim começa o passeio explicando a relação das comunidades ribeirinhas com os programas do governo. O objetivo dessa parceria é de preservação do parque, além de educar e garantir que as comunidades que vivem próximas à região cooperem de forma a estimular o desenvolvimento sustentável da região. Tudo é de certa forma orientado e controlado. A comunidade tira boa parte do seu sustento da própria floresta. Costumam pescar para comer, cortar as árvores para fazer lenha ou construir alguma coisa, ocupam espaços que antes era de mata para as casas, horta e demais espaços comuns da comunidade.

A impressão é que a comunidade leva a sério suas responsabilidades

E tudo isso funciona por pelo menos dois bons motivos. Primeiro porque as pessoas que ali vivem sabem o quanto a floresta é importante e como dependem da manutenção desses recursos naturais. Depois porque atingindo as metas dos programas de benefícios do governo, a comunidade ganha prêmios em dinheiro que são revertidos em melhorias da própria comunidade. O último prêmio, por exemplo, foi investido na construção de um restaurante que serve para receber os turistas e gerar mais renda para a própria comunidade. Ou seja, é um relacionamento de ganha/ganha.

Seguindo passeio, visitamos a casa da farinha. O guia que estava com a gente foi criado em uma das comunidades da região. Então pode explicar com propriedade sobre o processo de obtenção de todos os recursos que a mandioca podia dar e como todos na Comunidade participavam do processo, inclusive as crianças. Explicou ainda como os índios descobriram como extrair o veneno da mandioca brava e passaram a utilizar a raiz para se alimentarem enquanto ralava com grande proeza um pedaço de mandioca em uma demonstração prática de parte do processo.

Andamos ainda pela horta e jardim onde podemos brincar de tentar identificar algumas plantas. Nós gostamos bastante de plantinhas e chegamos a ter uma hortinha em casa. Então gostamos muito dessa troca. Nesse momento é explicado como alguns chás, compressas e óleos de algumas dessas plantas são utilizadas para o tratamento de várias doenças. Esse é o tipo de conhecimento que não está registrado em livro e que vejo sendo perdido através das novas gerações (pelo menos em São Paulo e região). Lembro como nossas avós costumavam cultivar algumas plantinhas em casa para serem usadas de alguma forma e pouco disso parece estar sendo passado a diante e quem sabe se conseguiremos resgatar. Muito dessa informação é resultado de centenas de anos de conhecimento dos indígenas que no Brasil viveram e que passaram à diante nas comunidades caboclas e ribeirinhas que algumas ainda preservam.

Outro mito que acabou caindo por terra na minha cabeça é sobre a terra para plantio. Sempre pensei que a terra na Amazônia, por conta da biodiversidade, fosse rica em nutrientes. Mas a verdade é que parece que o solo mesmo é muito pobre, estando a riqueza mesmo na decomposição da superfície do solo. Ou seja, para que as plantinhas da horta da comunidade cresçam, precisa mesmo é de adubação e muito ovo rs.

Até na Amazônia eles adubam as plantinhas e você em casa querendo que a sua plantinha cresça só na base de água hehe

Falando em ovo, vimos algumas galinhas em espaços cercados e um cachorro desses caramelos esperto. Logo perguntamos sobre os perigos de se viver tão próximo à mata. E ela nos contou sobre como perderam alguns cachorros e galinhas para onças e que as vezes aparecem algumas cobras. É um dos riscos de se viver por ali que eu não sei se conseguiria me acostumar.

A questão da energia e comunicação também foi ponto de curiosidade para os visitantes. A comunidade tem um gerador a diesel que transmite energia para as poucas famílias que vivem ali. É claro que não é o dia todo, mas poucas horas a noite precisam ser suficientes para o necessário. Vale lembrar que carregar o celular não é uma dessas atividades, já que não há sinal de celular por ali. A Comunidade mantém uma espécie de telefone rural com uma antena de longo alcance para situações específicas apenas.

A estrutura é simples, mas tudo bem pensado

Também fomos apresentados à coleção de pedras de todos os tipos e até alguns pedaços de cerâmica antiga de tribos indígenas que viveram na região. O garoto responsável pela bonita coleção a ostenta com orgulho e nos convida a perguntar sobre a história de como obteve qualquer uma das suas pedras. O brilho nos olhos do garoto enquanto explicava fez aquela coleção ser digna de museu. Os visitantes são levados também à lojinha onde é possível comprar lembrancinhas produzidas ou revendidas pela comunidade.

A lojinha tem itens de artesanato, cozinha e decoração

Por fim, passamos próximo de alguns moradores ilustres da região. O primeiro deles é um falcão branco que mora por ali há alguns anos. Segundo a líder da comunidade é uma convivência pacífica e até amistosa. O falcão está mais para um morador do que para um animal de estimação, já que sai para caçar e fazer suas atividades diárias antes de voltar à comunidade para dormir. A outra família de residentes é a comunidade de pássaros Japiim. Próximo ao rio podemos ver vários e vários ninhos desses pássaros preto e amarelo e conhecidos por imitar o canto dos outros pássaros. Muito barulhentos, foi divertido acompanhar um pouco da movimentação deles no final da tarde.

O curioso ninho do Japiim

Esse é um passeio que não costuma agradar todo o tipo de público. Confesso que a minha expectativa não era muito alta, mas fui surpreendido positivamente. Tudo bem que gostamos muito de hortas e plantas, mas gostamos mesmo é de entender um pouco como a comunidade funciona e como se relacionam com a natureza. Como conseguem manter um conhecimento secular dos índios sobre a fauna e flora e ainda aplicam na sua rotina. Como uma criança valoriza sua coleção de pedras e artefatos sem dar a menor bola para um smartphone que nenhuma serventia teria por ali. É um passeio para ver um pedaço diferente do Brasil que, um paulista como eu, nem fazia ideia que ainda existia e que tanto poderia nos ensinar.

O ilustre morador da comunidade em seu merecido repouso no final do dia

Partimos para o hotel na nossa voadeira onde temos mais uma vez oportunidade de tirar muitas fotos do escuro e espelhado Rio Negro. Após um descanso rápido e um jantar mais demorado e bem gostoso, estávamos prontos para conhecer a floresta de noite. Partimos então para a nossa primeira experiência de:

Focagem Noturna

Basicamente o passeio consiste em embarcar os hóspedes em pequenas voadeiras para navegar no Rio Negro na penumbra da noite, passando pelos atalhos que cortam a floresta de igapó (conhecidos por “furos”), bem próximo das margens procurando por animais. O guia, que fica na parte da frente e com a única luz do barco, reveza o apontamento dessa lanterna entre as margens do rio e o que vem pela frente de forma que o piloto do barco possa enxergar melhor ao navegar.

Relendo o que escrevi parece um pouco assustador e até perigoso, mas a verdade é que foi uma das experiências que mais gostamos de fazer por inúmeros motivos que precisamos escrever aqui e super recomendado para a família inteira.

Olha a cobra no topo da árvore. Achar esses animais no breu é para quem entende.

Vamos começar pelo óbvio e talvez o principal motivo do passeio: o avistamento dos animais. A nossa primeira noite foi de céu aberto e muito iluminada, além de estarmos acompanhados de um guia nascido na região e muito experiente na atividade. Tivemos muita sorte e avistamos mais de 20 animais de noite em seu habitat natural em plena Amazônia. Foram pássaros diferentes como garças e urutau, várias cobras, bicho preguiça, rato coró, jacaretinga, jacaré-açu, aranhas, patos, sapos e outros mais.

O processo todo é uma aventura muito divertida. O barco desliza devagar em trechos diferentes do rio. Em certos momentos estamos em um trecho bem aberto do rio onde é fácil observar a sombra da floresta iluminada pela lua. No entanto, em outros momentos estamos navegando em trechos estreitos dos atalhos da floresta de igapós onde precisamos tomar cuidado com os galhos das árvores e estamos tão cercados pela floresta que mal dá pra ver o céu estrelado.

E enquanto o piloto vai prestando atenção no caminho o experiente guia vai movendo sua lanterna potente procurando pelos olhos dos animais. Sim, o segredo está no olho. Quando a luz da lanterna bate nos olhos dos animais, reflete vermelho e então o guia sabe que tem algum animal por ali. Assim ele avisa o piloto e nos aproximamos para checar de qual animal de trata. Quando próximo e identificado, o guia passa algumas informações sobre o animal, o que come, algum hábito comum e esse tipo de coisa.

E aí, achou o animal? Uma dica: é um bicho-preguiça.

Outro grande momento desse passeio acontece próximo do fim do passeio, antes de retornar ao hotel. Um pouco mais afastado de onde partimos, o barco se dirige para um dos lagos mais tranquilos que se formam entre as ilhas. Nesse momento o barco para e desliga o motor. O guia pede silêncio a todos e apaga a luz da lanterna. Nesse momento ficamos alguns minutos no escuro ouvindo apenas o som da floresta à noite. É muito mágico!

O clima quente da Amazônia ainda se faz presente até de noite e, com o céu limpo, não há o que temer. Apesar do clima um pouco mais fresco, um casaco corta vento deve resolver na maior parte das vezes. Falando em céu limpo, esse é o segundo grande motivo para se fazer esse passeio. Apesar de ser possível e altamente recomendável que observe o céu também do hotel, a experiência de navegar no Rio Negro de noite observando as estrelas é umas das mais marcantes que já tivemos.

Já escrevemos nesse blog sobre o céu estrelado das Maldivas e ainda não pudemos escrever sobre o céu da nossa viagem à Bonito que também está na nossa listinha de favoritos, mas foi aqui que vimos até o que nunca tínhamos visto antes no céu: um satélite orbitando. Sim, ver estrelas cadentes em um céu tão limpo é até comum e já tínhamos visto em outras oportunidades. Dessa vez foi um pouco além quando estávamos quase deitados no barco olhando para cima e vimos um ponto brilhante se movendo muito lento para ser uma estrela cadente e claramente não era um avião. A primeira reação foi: “ué…é uma nave espacial?”. Mas daí um dos hóspedes que estavam no barco comentou que se tratava de um satélite e que depois do SpaceX era mais comum ver alguns pelo céu. Seja como for, em uma noite sem nuvens, o céu da floresta é um dos mais estrelados e lindos que já vimos. Vale a pena olhar para cima e brincar de identificar as constelações e planetas (baixe o aplicativo SkyView e divirta-se!).

Dica do Detalhes: Esse é um dos passeios mais divertidos e que nunca compete com qualquer outro porque é o único feito nesse horário. Pelo que pude observar, o hotel acaba disponibilizando apenas uma focagem noturna por pacote. Mas, caso você goste muito da primeira experiência, tente checar com a recepção a possibilidade de repetir o passeio. Às vezes existem algumas vagas sobrando em algum barco em outra noite e você pode fazer o repeteco sem pagar a mais por isso. Podemos garantir que a experiencia nunca se repete. Estivemos com um guia que era biólogo na segunda vez que fizemos a focagem noturna. É verdade que ele não tinha a mesma experiência ou sorte para localizar os animais e acabamos vendo menos do que no primeiro passeio. Mas em compensação, além de termos visto um jacaré-açu de pelos menos uns 4 metros de comprimento, o guia passou muitas informações técnicas sobre os animais que só um biólogo por formação poderia passar. Isso fez com que a experiência se tornasse diferente, apesar de igualmente especial. Quem sabe fazendo mais de uma vez você também não tem a oportunidade de obter informações diferentes, ver animais diferentes, pegar um céu mais estrelado e até dar sorte de pegar hóspedes mais silenciosos no seu barco rs.

Um pé de cacau lindamente dando frutos

O passeio se encerra com um retorno rápido para o deck do hotel de onde partem as voadeiras. Esse foi só o primeiro dia e já foi um belo cartão de visita do Parque Nacional e também do hotel Anavilhanas. O conhecimento dos guias, o nível do serviço, as atividades do dia, as refeições, tudo tudo estava a contento e estávamos muito felizes com o que já tínhamos vividos e ainda ansiosos com o que tínhamos pela frente. Se você está gostando da nossa série de posts sobre os hotéis de selva na Amazônia, não deixe de acompanhar o nosso blog e curtir nossas redes sociais (Instagram e Facebook). Publicaremos ainda todos os outros 3 dias inteiros de passeios e muitos mais Detalhes de Viagem. Até a próxima!

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