Florença: museu de esculturas a céu aberto

Para quem está acompanhando as publicações do Detalhes de Viagem, sabe que estivemos em Florença, curtindo a atmosfera artística em meio as construções que datam muitos séculos. Para quem está interessado em saber um pouco mais sobre, volte algumas casas e comece por aqui. Para quem já leu, continuemos nossa viagem…

Como todos sabemos, há diversos perfis de viajantes. Existem aqueles preferem passar rapidamente pelos principais lugares absorvendo o máximo de conteúdo possível. Já outros, reservam um período maior para poder entender um pouco sobre a vida local. Para Florença, não importa seu perfil, você sempre verá esculturas, esculturas e mais esculturas. No meio das praças, encrustadas nas paredes de várias construções na rua, dentro de museus, escolas, igrejas. Ufa! Para nossa sorte, é quase uma overdose de esculturas.

Como não é possível e nem recomendável circular de carro pela parte central da cidade, caminhar será o seu melhor meio de transporte por aqui. Por isso observar a riqueza da cidade enquanto caminha pelas muitas ruas não é só uma questão de prazer, é quase que como respirar. Respirar Florença, é claro!

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Rua bem no meio da Galeria Ufizzi, cheia de esculturas nos pilares.

Como sempre pensamos que são os detalhes que enriquecem as viagens, preparamos um punhado de informações sobre algumas esculturas e locais para apreciá-las na cidade.

Não há lugar melhor para começar do que a Piazza dela Signoria. Esta praça em L, que é a central de Florença, comporta o Palazzo Vechio simbolizando a sede do poder civil, bem como boa parte do burburinho da cidade. De dia, muitos turistas observando as construções famosas da praça. De noite, muitos restaurantes, bares e pessoas animadas curtindo o ambiente.

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Palazzo Vecchio lindão numa manhã de sol.

Além de tudo isso, é nesta Piazza que podemos encontrar várias esculturas famosas (ou pelo menos suas réplicas, já que algumas foram levadas para museus), e é por ela que começaremos o tour de esculturas.

Fonte de Netuno

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Fonte de Netuno na Piazza dela Signoria.

Feita em mármore e bronze, esta obra foi encomendada ao Bartolommeo Bandinelli, que chegou a escolher o mármore. Com sua morte, Bartolomeo Ammanati, próximo de Michelangelo e mais conhecido pela sua arquitetura do que pelas suas esculturas, venceu a concorrência e deu continuidade à obra. A fonte foi esculpida entre os anos de 1563 e 1565, porém foram necessários pelo menos mais dez anos para acrescentar os deuses fluviais, os sátiros risonhos e os cavalos marinhos em torno de Netuno.

Eu me perguntei e talvez vocês estejam se perguntando porque um Netuno no meio da praça de Florença?! Segundo pude pesquisar, seria para celebrar as vitórias navais da Toscana. Verdade ou não, é um belo ícone e vale a visita.

Ah! Outra curiosidade sobre a escultura é que dizem que Bartolomeo se inspirou nas feições do Cosimo I, duque de Florença, para esculpir Netuno.

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Cosimo I segundo a Wikipedia, bem pouco parecido com Netuno!

E vocês, acham parecidos?

David de Michalangelo

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Há quem acredite que esse é o original, de tão bem feito!

Esta estátua tão famosa também pode ser encontrada na piazza. Na verdade, a réplica da obra prima original que esteve na praça até 1873, quando então fora transferida para a Galeria dell’Accademia.

Hércules e Caco

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Acho que Caco não está numa situação muito boa…

Ao lado da réplica de David, é possível observar Hércules segurando Caco pelos cabelos. Feita em mármore, esta estátua fora esculpida por Bacio Bandinelli entre os anos de 1530 e 1534. A ideia foi retratar um dos “Doze Trabalhos de Hércules”. Pelo que pude estudar, Hércules roubou o gado de Gerião, o rei de Tartesso, para cumprir uma das doze tarefas tidas como impossíveis para um mortal como autopenitencia por ter matado sua família em um ato de loucura. Caco, filho do Deus do Fogo Vulcano, que costumava roubar artefatos dos Deuses entre outras coisas para vender, furtou alguns dos melhores touros e novilhos do recém gado roubado de Hércules. Apesar de não conseguir localizar Caco quando acordou, Hércules contou com o destino, e, passando pela caverna onde Caco morava, ouviu um mugido. Bom, o final da história está retratada na imagem.

No mais, gosto de pensar que uma escultura de mais de 5 metros de altura vem a calhar para Caco, que já fora retratado como um gigante semi-humano por Virgílio, na epopeia Eneida.

Perseu e Medusa

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Não viramos pedra, estamos bem!

Se observar bem, encontrará na Loggia dei Lanzi umas das esculturas mais famosas e cheias de histórias por aqui. Quem nunca ouviu falar de Perseu e da Medusa? Pois é! Há tantas e tantas lendas, histórias e poemas envolvendo este monstro mitológico, que eu precisaria dedicar um post só para isso caso quisesse abordar toda a temática envolvida. Como a ideia é dar alguns detalhes, resolvi escolher a versão da Medusa escrita pelo poeta romano Ovídio. Ovídio sugeriu que Medusa seria uma linda sacerdotisa de Atena, que tendo cedido às investidas de Poseidon, fora transformada pela Deusa em um ser tão horripilante que bastava olhá-la para ser transformado em pedra. Como se não fosse desgraça suficiente, a maioria dos mitos, contam que Perseu, um herói semideus, recebeu a missão de trazer a cabeça da Medusa como presente para o Rei Polidetes de Sérifo. A missão só obteve êxito porque Atena, Hermes e Hades contribuíram, cedendo as sandálias aladas, uma espada e escudo tão polido que pôde ser utilizado como espelho e o Elmo da Invisibilidade.

Eu nunca me surpreendo com os pedidos estranhos dos Reis nestas histórias. Pelo menos aqui, Perseu se vingou transformando o rei em Pedra e entregando a cabeça para a Atena, que a colocou em seu escudo. Acho que este serve como exemplo do que pedir à um herói mitológico.

Mas o que isso tem a ver com Florença? Bom, Cosimo I (sempre ele) idealizou a estátua de Perseu e Medusa em bronze e solicitou que Benvenuto Cellini o fizesse. Cellini, nascido em Florença em 1500, era ourives, escultor e, segundo consta em sua autobiografia, festeiro e encrenqueiro. Independente do perfil que tivesse, forjou com maestria essa escultura que provavelmente você estará olhando agora (ou se preparando para vê-la, se já estiver de viagem marcada).

Curiosidade: Esta foi a única estátua de fato encomendada para estar ali. Todas as demais foram trazidas oportunamente.

Curiosidade 2: O pedestal é uma cópia. O Original está bem protegido em Bargello, um museu de esculturas em Florença.

O Rapto das Sabinas

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Uma das nossas esculturas favoritas, que faz um bloco duro de mármore parecer macio e vivo como pele.

Aqui temos outra estátua muito famosa e em posição de destaque. Dê uma volta completa na estátua. Agora mais uma. Parece-me que é assim que essa estátua foi feita para ser vista. Por todos os lados e em todos os detalhes. As expressões nada serenas retratam um dos episódios mais famosos da história romana e que leva o seu nome: O Rapto das Sabinas. Ao fundar Roma, segundo Lívio, autor da obra histórica que remonta a criação de Roma, Rômulo e seus seguidores observaram que haviam poucas mulheres entre eles. Sendo assim, trataram de negociar com seus vizinhos a possibilidade de casarem-se com as mulheres sabinas. Ao terem seu pedido negado e uma rivalidade iniciada, Rômulo teve uma ideia: Por que não atrairmos as mulheres para a cidade e então raptá-las? E assim foi feito. Com a desculpa de um Festival em homenagem ao Netuno, várias pessoas vieram até Roma e várias mulheres foram raptadas.

Quem pensa que as mulheres foram forçadas a qualquer coisa, ainda segundo Lívio, se enganou. Rômulo suplicou a cada uma para que se casassem com os Romanos, oferecendo-lhes direitos civis e de propriedade. Ao que parece, depois de algumas guerras com os seus vizinhos, estas mesmas mulheres foram responsáveis por unir Rômulo e o Rei Sabino Tácio, de forma que governaram juntos até que morressem.

O mais impressionante é que essa escultura fora esculpida em uma única peça de mármore pelo artista francês Giambologna entre os anos de 1579 e 1583. Três personagens tão expressivos espremidos em uma peça de mármore contando uma das histórias mais interessantes de Roma. Merecia ou não merecia esse espaço?

Hércules e Nesso

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Não parece uma boa idéia desafiar Hércules…

Olha Hércules aqui de novo e olha Giambologna fazendo história de novo. Esta foi uma das últimas obras de destaque deste renomado artista e com o mesmo estilo e requinte do Rapto das Sabinas. Mas o que mais me chama atenção nesta obra é que, diferentemente de outras obras que antecedem ou sucedem o conflito, a luta ainda está acontecendo. Na verdade, parece retratar o ponto alto do conflito entre os dois, talvez o golpe de misericórdia.

Hércules matou Nesso por tentar violentar sua mulher, Dejanira. Mas também é verdade que Nesso matou Hércules (ao menos no plano terrestre). Isso só aconteceu porque, antes de morrer, Nesso convenceu Dejanira de que seu sangue, que na verdade era um veneno poderoso, seria capaz de fazer com que Hércules a amasse para sempre. Ela então banhou as vestes de Hércules no sangue. Acho que o resultado não foi o que ela esperava…

Menelau e Patroclo

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Um pouco diferente do filme Tróia, não?

Colocados em uma posição menos privilegiada, mas também muito belas, temos as esculturas de “Menelau e Patroclo” e o “Rapto de Polissena”.

Não há muitas informações sobre a primeira obra, já que não se sabe o autor e nem mesmo quando fora esculpido. As únicas certezas que se tem é que fora adquirido pelo Cosimo I por volta de 1570 e que fora exposto em vários outros lugares de Florença antes de ser levado à Loggia dei Lanzi. De qualquer forma, apesar dos restauros criticados (um dos braços de Patroclo e o elmo de Menelau), a possível origem romana e o fato que remonta, também são detalhes de sua viagem que considerados bacana conhecer.

Provavelmente você conhece esta cena de algum livro ou filme. Lembra quando Aquiles se recusou a continuar a guerra em Tróia por uma desavença com Agamemnon? Lembra-se também quando aquele rapaz criado com Aquiles tomou seu lugar na batalha e foi morto? Pois é! Esta é a cena que remonta a morte daquele rapaz, também conhecido como Patroclo. Quem o segura é Menelau, rei espartano e herói nobre e rico da mitologia grega. Talvez você o conheça mais porque era o marido de Helena e irmão mais novo de Agamemnon. Os filmes são bacanas, mas Patroclos e Menalau não costumam ser retratados de forma positiva como em alguns poemas históricos. De qualquer forma, aqui temos esta escultura romana que nos conta uma parte importante desta história tão conhecida que foi a Guerra de Tróia.

Quanto ao Rapto de Polissena, ao menos sabemos quem o esculpiu: Pio Fedi. Apesar de ter sido esculpida “recentemente” (1865), esta obra também remonta parte da Guerra de Tróia, ou pelo menos uma das consequências. Aquiles se apaixonou à primeira vista por Policena e chegou a propor ao seu pai (Rei de Tróia) a retirada de seus homens (mirmidões) da guerra. Como isso não garantia a saída dos demais gregos da guerra e o rei não via com bons olhos casar sua filha com um inimigo, a oferta foi recusada. Mas a mãe de Policena viu ali uma oportunidade. Tramou com os guerreiros mais valentes de Tróia uma emboscada para Aquiles. Dizendo que daria a mão de sua filha no Templo de Apolo, aguardou sua chegada para o que seria a última vez que Aquiles lutaria com alguém.

Agora que já desvendamos quem é a mulher raptada nesta obra, resta saber quem a está levando se não Aquiles. Este seria Pirro, que movido pela vingança ou por um pedido do espírito de seu pai, raptou Policena para que morta fosse. A trama contada pela escultura também revela a espada que matou o irmão de Policena, deitado ao chão e o desespero de sua mãe, que tentava protegê-lo.

Demais esculturas

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Tão pensativa…

No mais, existem outras obras ao fundo deste famoso espaço que devem ser observadas. Como por exemplo algumas estátuas femininas identificadas como Matidia, Marciana, Thusnelda, Agrippina Minor e Sabina. Não há muitas informações disponíveis, somente que datam a época de Trajano e Adriano. Aparentemente esculpidas por um bárbaro e descobertas em Roma em 1541. Pela antiguidade e por não serem bem conservadas, é de se imaginar que foram restauradas de forma significativa. Por fim, você vai se deparar com os Leões di Medici. Na verdade, estando em Florença ou Veneza, é sempre comum se deparar com Leões, já que se tratam de símbolos das cidades. O mais antigo (visivelmente) é dos tempos romanos, enquanto o mais novo e de mármore fora esculpido em 1598 por Flaminio Vacca e trazido para Florença em 1789.

Ufa! Depois de ver tantas obras em plenas ruas e praças, não tem como não ficar deslumbrado com Florença. Isso porque estas são apenas algumas das muitas e muitas outras espalhadas pela cidade. Claro que faltou a, talvez mais conhecida e original, escultura de David de Michelangelo. Mas achamos que tamanha obra e considerando os detalhes sobre a obra e a compra dos ingressos, merecia uma atenção especial.

Logo, em breve publicaremos um post para que possam anotar mais estes Detalhes de Viagem. Até daqui a pouco! 😉

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Leãozinho tristonho, mas lindo, de Florença.

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